Volta à Ilha de Santa Catarina em uma prancha de Windsurf
Renato Pozolo completa pela primeira vez a circunavegação de "Floripa" com 8h 40min velejando numa prancha Formula HWR
Há muitos anos a volta à ilha de Santa Catarina de windsurf vem sendo alimentada por velejadores aventureiros.
Agora, pela primeira vez, ela foi concluída! O gaúcho Renato Pozolo, entusiasta de provas de longa distância e travessias foi o autor da façanha e conta a seguir como foi:
30 de dezembro , ja vinha na cabeca com essa volta na Ilha desde uma regata a uns 6 anos atras que saia do costao do santinho rumo ao sul da ilha. Depois de varios dias tentando, so chegamos perto da ilha do campeche. Na estrada , indo para Ibiraquera, encontro o Pedro Aiello, que estava indo para Florianopolis onde seus pais estao morando na praia do Campeche, feito, ta ai o homem socorro, com celular e um GPS, qualquer problema, passo pra ele minhas coordenadas e ta feito o resgate. Quarta feira , saio de Ibira cedo, vento fraco de sul no Campeche, só da condicao a 1:00 da tarde, entro na agua rumo ao sul em contravento em direcao a um costao . Chegando la vi que era o costao da Lagoinha do Leste, praia que so se chega por trilha, linda. Mais ao sul, tres ilhas, e o vento que ja era fraco comeca a diminuir, mar mexido como sempre e o planeio fica trabalhoso, vou quase ate a ponta sul, mas nao consigo olhar o forte da praia do Sonho, fico uma hora parado boiando, resolvo abortar e parar em Pantano do Sul, que to vendo bem ao fundo da baia, tento ligar pro Aiello e nao consigo ligacao, ai adivinha??? entra o vento sudeste, direcao perfeita pra dar a volta na ilha, mas ja sao quase 4 da tarde e nao da mais tempo, volto numa planada show ate o campeche, 70 km percorridos, amanha tentamos de novo. Quinta feira, ja amanheceu ensolarado com uma brisa de sul, a previsao é melhor que na quarta, tomamos um cafe, 6 ovos crus, wheight protein, calibramos o camel back com 2 litros de agua com cytomax, 3 saches de carbohidrato e uma rapadura de leite (sobremesa) e hoje tem chance. 11:31 hs, saio planando, desta vez rumo ao norte, azar que o popa é mais dificil com back wash dos costoes, pelo menos a corrente me ajuda e entre o continente e a ilha pego uma corrente contra quase nula no contravento. Ja no comeco do popa comeco a sentir a coxa, sequela do dia anterior, caracas , to cansado, quero ver aguentar, mas ja sabia que barbadinha nao ia rolar, vamos seguindo o tour pelas praias, Joaquina, Praia Mole, Barra da Lagoa, mas tudo isso la de longe, a idéia era avancar, e quanto mais longe da costa, menos back wash dos costoes, menos energia gasta pra ginetear a prancha. Entro mar a dentro, paro de me preocupar com o mastro , a parte mais vulneravel do equipamento, nao vai quebrar, nao vai quebrar. Dou o jibe e velejo 8 km ate a costa num bordo so, jibeio de novo e vejo o Hotel Costao do Santinho colado no morro, fico imaginando as banheiras de hidromassagem, as batidinhas de coco, as massagens, mas nao vou parar nao, ainda nao mereco, continuo velejando, agora tem ilhas no caminho, o que ajuda o mar a ficar ainda mais mexido. Resolvo passar por fora de uma delas e quando jibeio, vejo que o bordo vai me levar direto a ponta das canas, a praia brava quase na proa, da um baita animo, saber que vou entrar noutra fase de mar e direcao de vento, to quase no norte da ilha, vou surfando os vagalhoes e a velocidade chega em torno de 44 km nestas horas, dou uma bronca nos peixes voadores que insistem e cruzar exatamente na minha proa, show, que beleza, agua azul escura limpinha limpinha. 1:00 hr da tarde, chego na ponta das canas, agora o vento é terral de rajada,o mar fica liso, mas só ate a baia de canasvieiras onde pra minha surpresa o mar é pequeno mas mexidasso, lembro dos campeonatos Hollwood na decada de 80, vejo a charmosa ilha do frances na divisa com Jurere e sigo em frente, rumo a Daniela. O vento para e volta, plano e boio, aproveito pra comer o primeiro sache de carbohidrato, o vento melhora e vou direto pro traves da praia da Daniela, e ai comeca a merreca, sol a pino, sao 1:45hs da tarde, e o sul para, ando a 4 km por hora em contravento, assim nao vou a lugar nenhum, calorao, rajadinha, plano 500 metros , para de novo, culpa da ilha, comeco a praguejar, nao acredito, ventinho show do outro lado, pq aqui nao venta?? mais uma rajadinha, aumenta sul , aumenta sul, por favor, so mais 2 nozinhos de vento, por favor, e nada, continuo boiando, ate que as 14:15 vejo a agua brilhando, isto é vento, volto a planar e ai alegria total, veio pra ficar , nao vai parar, o bordo me leva quase direto pra ponte, vejo as duas ilhas ratones e la ao fundo, bem longe, elas, as duas pontes, os predios da beira mar, paisagem bonita, e o velejo fica feliz, contravento de uns 14 nós, a pranchinha andando na borda, 25km/hora, vou longe num bordo só, me aproximo da costa quando aparece umas pedras bem na minha frente, isso aqui é minado de pedra, cambo rapido, tudo que nao quero é detonar a prancha, ainda mais q o mastro ta aguentando, nao vai quebrar. Perto da beira mar norte passo por uma ilhazinha com praia de areia e um barzinho, alucinante o visual, a ponte ta perto, o mar fica lisinho, velejo classico, uma cambada atras da outra , to chegando na ponte velha, passo batido por baixo, planando firme no liso, la vem a ponte nova, mexedeira, rajadeira, corrente forte contra, vento para , entra ao contrario, caio, levanta a vela, caracas, to cansado pacas, orco sem planar, cambo de novo, rebosteio, caio de novo, calma, uma hora eu passo, pego mais altura e pego vento, passo a ponte, oba, vejo q a ilha se projeta pro leste, com vento sul, vou quase direto, so que a prancha nao anda, um mar cruzado de tudo que é lado, parece que to parado, q velejo ruim, sem graca, agua suja , paisagem feia, vejo uma ilhazinha verde no sul, é o forte no sul da ilha, mas que barbada, ta bem pertinho, o vento aumenta, otimo, aumenta mais , comeco a fazer forca, aumenta mais, a prancha comeca a pular onda e sair do controle, to me aproximando de uma praia, parece que ta cheio de barco de pescador na margem, mas nao é nao, sao um monte de troncos e arvores caidas dentro dagua e na praia, um cemiterio de arvores, e o pau comendo, melhor cambar logo, quem disse? nao consigo, a vela nao arma pro outro lado, o vento ta muito, mas muito forte , no water start a prancha voa e cai de casco pra cima, bufa mesmo, capricha no water start, agora deu, continuo no bordo, cambo e a vela cai na agua e decido lanchar mais um carbohidrato sentado na prancha, calma , qual a pressa?? com esse vento forte nao tem como velejar de popa no lado dos costoes, que merda, pedi vento, mas nao precisava exagerar, termino o lanche, pulo nagua, e tenho pé. Vamos pra praia entao, pisando numa lama q afunda uns 30 cm ate o pé tocar uma tabatinga, piso nuns galhos, e se corto o pé numa destas?? no meio do nada, praia deserta, sem acesso de carro??? sento na prancha e chego na praia arrastando tudo, cuidando pra nao rasgar a vela nos galhos, aumento um pino na extensao, dois pinos na retranca, pé de mastro lá na frente e baixo a retranca. O objetivo é ir velejando até a praia do Sonho, até lá o sul deve diminuir, tem q diminuir, o sul sempre diminui, pode acreditar. Enquanto fico pensando nisto o vento aumenta, mas to andando, impressionante como fica velejavel com esta regulagem, o mar ta branco, que porradaria, queria o que?? moleza?? vamos velejar, melhor ir encostado na ilha do lado leste, onde tem menos onda e o vento fica só forte, e vamos cambando, a cor da agua melhora, verdinha, azul, passo por varias fazendas de ostras, e ai vejo a ilha que tava perto, que ilha o que, doce ilusao, aquilo é uma ponta verde, e por tráz dela que vejo longe pacas a verdadeira ilha do forte no sul da ilha, falta muito ainda, menos mal, dá mais tempo pro vento diminuir, beleza, vamos velejando. Mais fazendas de ostras, to chegando, o vento comeca a diminuir, eu nao disse?? nao quiseram acreditar é? ta ai ó, o vento ta diminuindo, assim vou conseguir, e o mastro nao vai quebrar, nao vai mesmo. Diminui o vento, to chegando, caracas , que droga velejar com vento fraco com essa regulagem q eu to. Spin out toda hora, mas melhor deixar assim, nao esquece do popa suicida que vem por ai, mas o vento ta diminuindo, chego no forte, rajadeira, caio, levanto e vou pro mar aberto, comeca a chover, planando no limite, para o vento, mar mexidissimo, acrescentado agora de um vagalhao vindo de alto mar, to andando a 9km por hora em popa, agora azar , vou assim mesmo, sao 6:15 da tarde, a 10km por hora chego no campeche pelas 10 da noite, os biceps tao fervendo, estico os bracos, mais chuva, o vento vai voltar, o vento vai voltar, tá instavel o tempo, vai voltar o vento sim, vou boiando, chego nas ilhas do sul, nuvem com vento, plano de novo, nova nuvem, to indo a 40km direto pra lagoinha do leste, que presente esse vento, que maravilha, o costao ta ali, mas nao chega nunca, veleja, veleja, veleja e o costao continua ali, mais chuva, tento ver a lagoinha do leste, mas nao da, so agua e nuvem, sei que to perto do costao pelo mar mexido, o vento ta otimo, barbadinha, epa, ta parando de novo, boio de novo, espera, pelo menos a nuvem foi boazinha, quero outras, la vem outra, fica forte, acho q é um temporal , logo para, merreca, boia de novo, quero chegar, volta o vento, fraco, pior , exatamente do sul cravado, é popa raso pro Campeche, jibe pra lá , jibe pra cá, e nao saio do lugar, a cada jibe tenho que bombar a vela pra comecar a planar, mas com que bracos?? já sao 7:15hs, espero o vento ficar mais forte pra tentar planar, nao tem pressa mesmo, cade a ilha do Campeche?? hahahhhaahah, ta la na China, aquelas pedrinhas lá sao a ilha do Campeche, quem sabe um dia eu chego lá, fazer o que né?? veleja pra lá, veleja pra cá e vou chegando, com chuva, anoitecento, vento para, vento volta, assim é a vida dum velejador cansado mas com astral la em cima,to chegando e lógico que o mastro nao vai quebrar logo agora , obvio que nao. Ouco meu celular tocando, deve ser a turma do resgate preocupada, mais tarde vejo que era mesmo, chego na ilha e o ultimo bordo pra chegada vou boiando, quase noite , o mar subiu, surfo uma onda no capricho pra nao cair e quebrar o mastro, ele aguentou, chego na praia deserta, chove pacas, consegui dar a volta na ilha, 8hs e 40 min depois, largo a prancha na areia e volto pro mar e fico comemorando sozinho , cansado e feliz com essa aventura.
Material usado:
Prancha formula starboard HWR
Vela gaastra vapor 10 metros
Quilha Z 68 cm
Mastro gaastra 5.20m 100% carbon (inquebravel)
Retranca Gulf Tech carbon









